Você está pronto para “passar a vez”?
Como ficará minha empresa, minha família, o mundo, quando eu não estiver mais aqui?
(…) Ninguém gosta de imaginar-se fora do jogo, mas numa das rodadas, seremos obrigados a “passar a vez”. A partida pode até ter prorrogação, ir para os pênaltis, mas não será infinita.
Os árabes foram criadores de inúmeras contribuições, importantes para a ciência e para a humanidade. Vou listar algumas, para que você perceba a dimensão do que quero dizer.
Foram os difusores e aperfeiçoadores dos números indo-arábicos (0, 1, 2, 3, …), substitutos dos numerais romanos. O conceito de zero chega ao Ocidente através deles. Sem esse sistema, a Contabilidade, a Física e a Química teriam uma apresentação completamente diferente. A Álgebra e os Algoritmos são contribuições deles também, além da Medicina (os hospitais como os conhecemos hoje), da Farmácia e da Astronomia. Quem não conhece e admira suas contribuições para a Arquitetura, a Engenharia e as “Mil e Uma Noites” de sua literatura?
É um povo que vem deixando um legado inestimável para o mundo como o conhecemos hoje, tornando-o melhor, sem dúvida. E esse é o tema sobre o qual quero refletir nesse texto: legado.
Como ficará minha empresa, minha família, o mundo, quando eu não estiver mais aqui?
É o tema e é um problema. Como disse Carlos Drummond de Andrade em “O Poema de Sete Faces”, “seria uma rima, mas não seria uma solução”. Ninguém gosta de imaginar-se fora do jogo, mas numa das rodadas, seremos obrigados a “passar a vez”. A partida pode até ter prorrogação, ir para os pênaltis, mas não será infinita.
Esse incômodo tem fundamento: para falar de legado, sou obrigado a falar também de finitude, um eufemismo para não usar as palavras mais duras – sendo bem claro – morte ou final efetivo da carreira. No sentido físico, ou no plano corporativo, o sentimento de terminar pode ser amargo, dependendo de como você constrói seu legado hoje e todos os dias. No tabuleiro do Jogo da Vida e das Carreiras, cada atitude conta. Então é interessante observar o nosso estilo como jogadores.
Há os que escondem os dados na mão. Não delegam. Travam o tabuleiro. Têm a ilusão de que, ao atrasar o jogo dos outros, garantirão mais rodadas para si. Mas o tempo não aceita suborno. O máximo que conseguem é deixar o time impaciente e o tabuleiro confuso. Esses deixam pouco legado, porque confundem controle com contribuição.
Existem aqueles que jogam olhando apenas para o próprio placar. São os que organizam tudo para maximizar a “pontuação” individual — bônus, visibilidade, poder. Esses até avançam algumas casas, mas não constroem nada que continue existindo quando levantam da cadeira. Sua “obra” morre com eles. No jogo da carreira, o placar, um dia, zera para todos. O que não zera é a forma como você se conduz a cada rodada.
Há, entretanto, os que sabem jogar bonito. Fazem como na música “É uma partida de futebol”, do Skank: “O meio-campo é o lugar dos craques, que vão levando o time todo pro ataque”. Dá gosto de ver, mesmo não estando envolvido na partida.
Esses constróem o verdadeiro legado. Entendem que o jogo é coletivo. Fazem suas jogadas — boas, às vezes brilhantes — e deixam a mesa mais bem arrumada para quem vem depois. São líderes visionários, que abrem espaço para o próximo turno, ensinam as regras para os novatos, deixam cartas preparadas para facilitar a vida de quem vier a assumir. Sabem que “ganhar” não é ficar mais tempo, e sim permitir que o jogo continue.
Aliás, essa é ironia: quem tenta ficar mais tempo jogando, perde o jogo. Quem se apega demais à própria posição e passa anos tentando adiar a próxima rodada, deixa um tabuleiro bagunçado, peças quebradas, regras confusas. Quantos jogadores terá tirado da mesa?
Já quem aceita passar a vez com elegância costuma ser lembrado com respeito — não por permanecer mais, mas por permitir que outros também brilhem. Quantos outros jogadores brilhantes inspirou, para que viessem para o jogo?
Como sou muito preocupado com esse tema e outro associado, que é a reputação, já ouvi várias definições sobre legado. A que mais faz sentido para mim é a que diz que “legado é aquilo que continua produzindo efeitos, para além da nossa presença”. Percebe a sutileza dessa afirmação? Não é preciso morrer, no sentido literal ou não, para deixar um legado. A cada lugar em que passamos, uma parte de nós fica. Será boa, ou nem tanto?
Como dizem, “há dois dias importantes na vida: o primeiro e o último. Porém, o mais importante é o que você faz entre eles.”. É durante esse “meio tempo” que você constrói seu legado.
Como você quer ser lembrado?
Hudson Carvalho é consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, diretor regional da Wisdom – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista e diretor executivo da Elabore-Online – Pessoas e Resultados. Ele escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às segundas-feiras.
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