terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Beatrice de Toledo Dupuy

Clique para ver mais

Articulista

Voluntariado corporativo: quando propósito se transforma em estratégia

No fim, o verdadeiro retorno do voluntariado não está apenas naquilo que a empresa entrega. Está naquilo que ajuda a construir: confiança, desenvolvimento e um futuro compartilhado.

O que uma empresa ganha quando seus colaboradores dedicam parte do seu tempo ao voluntariado?

A resposta mais óbvia seria: ajuda a quem precisa. Mas ela é incompleta.

2026 nos convida a olhar para o voluntariado de uma forma diferente. A ONU designou este como o Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável, reconhecendo o papel do voluntariado na aceleração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e reforçando a importância de integrá-lo às estratégias de desenvolvimento. 

No Brasil, esse movimento também ganhou escala. O Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025, realizado pelo Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), registrou, em 2024, 131 mil voluntários, 34 mil ações e 7,3 milhões de pessoas alcançadas. Os números mostram a dimensão que o voluntariado empresarial vem alcançando no país. 

Quando bem estruturado, o voluntariado corporativo desenvolve pessoas, fortalece culturas, aproxima empresas das comunidades e constrói relações de confiança. Em outras palavras, pode ser uma importante ferramenta de sustentabilidade e de estratégia empresarial.

Desde 2008, o Programa Sou Voluntário, da Santos Brasil, mobiliza colaboradores em ações sociais contínuas, realizadas em parceria com instituições das regiões onde a Companhia está presente. Em 2025, foram 421 voluntários, 17 ações e 1.392 horas dedicadas.

Mas o número que mais me interessa não está nessa conta. Está naquilo que acontece depois de cada ação.

Quando um profissional sai da rotina corporativa para conhecer outra realidade, ele não leva apenas seu tempo. Leva experiência, habilidades e disposição para contribuir. E volta diferente: com novas perspectivas, maior capacidade de escuta e uma compreensão mais concreta dos desafios que existem fora dos muros da empresa.

Em um ambiente de negócios cada vez mais orientado por tecnologia, dados e inteligência artificial, competências humanas como empatia, colaboração e capacidade de adaptação ganham ainda mais valor. O voluntariado cria um espaço real para exercitar e desenvolver essas habilidades.

Por isso, não vejo essa prática apenas como uma iniciativa social. Ela também é uma experiência de desenvolvimento e fortalecimento da cultura organizacional.

Há ainda uma dimensão especialmente relevante para empresas de infraestrutura, logística e portos: a relação com os lugares onde estão inseridas.

Nenhuma operação existe de forma isolada. Empresas fazem parte de cidades, comunidades e ecossistemas que influenciam e são influenciados por sua presença. Conhecer essas realidades, ouvir diferentes atores e estabelecer relações de confiança é fundamental para construir uma atuação sustentável no longo prazo.

Nesse sentido, o voluntariado pode funcionar como uma ponte entre empresas e comunidades. Uma ponte entre conhecimento e oportunidade, entre quem pode contribuir e quem precisa de apoio.

Mas, para cumprir esse papel, é preciso ir além das ações pontuais.

Um programa consistente começa pela escuta: quais são as necessidades daquela comunidade? Quais organizações já atuam ali? Onde as competências dos colaboradores podem fazer diferença? Como construir parcerias que tenham continuidade?

Também precisamos ampliar a forma de medir os resultados.

Quantas pessoas participaram? Quantas horas foram dedicadas? Quantas ações foram realizadas? Esses indicadores são importantes, mas não contam toda a história.

A pergunta mais relevante é: o que mudou depois da nossa participação?

Pode ser uma criança que teve acesso a uma nova oportunidade, uma organização social que fortaleceu sua atuação, uma comunidade que passou a contar com novas ferramentas ou um colaborador que retornou ao trabalho com uma percepção diferente sobre a sociedade.

Existe, portanto, um valor que nem sempre aparece nos indicadores tradicionais: as conexões que se criam, as experiências compartilhadas e a confiança que se constrói.

E há uma oportunidade ainda maior: colocar as próprias competências profissionais a serviço das causas. Comunicação, tecnologia, gestão, finanças, engenharia, recursos humanos, logística. Cada área pode contribuir de maneira diferente.

Conhecimento também é uma forma de voluntariado.

Essa visão aproxima o voluntariado da própria estratégia de sustentabilidade. ESG não se resume a metas, indicadores ou relatórios. Esses instrumentos são fundamentais, mas a transformação acontece quando compromissos passam a orientar comportamentos e decisões.

É aí que o voluntariado ganha força: ao transformar propósito em experiência concreta.

Para empresas que atuam em setores essenciais ao desenvolvimento do país, essa conexão é ainda mais importante. Portos, ferrovias, rodovias, terminais e centros logísticos movimentam cargas e conectam mercados, mas também fazem parte da vida das comunidades por onde passam.

Assim como a infraestrutura física conecta pessoas, produtos e mercados, o voluntariado pode criar conexões que não aparecem nos mapas logísticos: entre empresas e comunidades, entre conhecimento e oportunidade, entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social.

Talvez seja essa a evolução que precisamos buscar: deixar de enxergar o voluntariado como uma atividade de calendário e tratá-lo como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento humano e social.

Porque sustentabilidade não é apenas reduzir impactos ou cumprir metas. É também contribuir para criar as condições para que as comunidades onde uma empresa atua possam prosperar.

No fim, o verdadeiro retorno do voluntariado não está apenas naquilo que a empresa entrega. Está naquilo que ajuda a construir: confiança, desenvolvimento e um futuro compartilhado.

E talvez essa seja a essência do voluntariado corporativo: pessoas colocando tempo, conhecimento e propósito a serviço de algo maior do que elas mesmas.

Béatrice de Toledo Dupuy. Gerente Executiva de Comunicação da Santos Brasil. Presidente do Conselho ESG do Brasil Export.

Compartilhe:
TAGS

Leia também