Transportes
Rio Negro pode ter terceira vazante mais severa da história
Redução do nível já provoca impactos em municípios do interior do Amazonas e aumenta a preocupação com a navegação
O Rio Negro pode registrar em 2026 uma das três vazantes mais severas da série histórica em Manaus. O nível encerrou agosto em 24,19 metros, mas projeções do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) indicam que a cota pode recuar para uma faixa entre 13 e 16 metros durante o período de seca. No cenário mais severo, a estimativa chega a 12,92 metros.
A redução do nível dos rios já provoca impactos em municípios do interior do Amazonas e aumenta a preocupação com a navegação, o transporte de cargas e o abastecimento de comunidades ribeirinhas. Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, na região do Alto Solimões, decretaram situação de emergência em razão dos efeitos da estiagem.
A cota registrada em Manaus no fim de agosto ficou 2,58 metros acima da observada no mesmo período de 2025 e 4,17 metros acima da marca de agosto de 2024. Naquele ano, o Rio Negro atingiu o menor nível da série histórica, chegando a 12,66 metros em 4 de outubro.
Apesar de ainda estar distante do recorde, a velocidade de recuo registrada em agosto chamou a atenção dos pesquisadores. O comportamento foi superior à média histórica e apresentou semelhanças com o observado em 2023, quando a região também enfrentou uma seca severa.
Navegação é um dos principais impactos
A queda das cotas reduz a profundidade disponível para a navegação e pode dificultar a circulação de embarcações em trechos mais rasos dos rios amazônicos. O efeito é relevante para a logística regional, já que o transporte fluvial é fundamental para conectar municípios, comunidades e centros de abastecimento.
A redução da lâmina d’água também pode afetar o transporte de mercadorias, passageiros e insumos, além de elevar os desafios para o abastecimento de localidades que dependem dos rios como principal meio de acesso.
Os primeiros 15 dias de setembro serão importantes para avaliar a evolução da vazante. Em 2023 e 2024, o nível do Rio Negro recuou entre 3 metros e 3,5 metros nesse período. Em 2026, até 2 de setembro, a queda havia sido de 15 centímetros, levando a cota para 23,94 metros.
Segundo as projeções do SGB e do Inpa, mesmo um cenário mais favorável colocaria a vazante deste ano entre as dez mais severas da série histórica. As projeções mais críticas aproximam o nível das marcas registradas durante as grandes secas recentes.
Risco se estende para 2027
Além dos impactos sobre a navegação neste ano, pesquisadores acompanham as condições para a recuperação dos rios durante o próximo período chuvoso.
A atuação do El Niño é um dos fatores de atenção. O fenômeno, associado ao aquecimento das águas do Pacífico, pode alterar o regime de chuvas na Amazônia. Projeções que apontam a permanência de seus efeitos até março de 2027 levantam preocupação sobre a recuperação dos níveis dos rios.
Uma recuperação abaixo do esperado durante a estação chuvosa poderia aumentar o risco de uma nova vazante severa no segundo semestre de 2027.
A evolução das cotas em setembro, portanto, será importante para dimensionar a seca de 2026 e avaliar as condições de recuperação do sistema de rios amazônico para o próximo ciclo de cheia.
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